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A dependência de materiais importados expõe um ponto crítico dos distribuidores de dispositivos médicos no Brasil

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O Brasil possui o maior mercado de dispositivos médicos da América Latina e um dos dez maiores do mundo. Ainda assim, a estrutura produtiva nacional não acompanha plenamente a demanda do sistema de saúde.

Em 2024, o país importou cerca de US$ 9,79 bilhões em dispositivos médicos, enquanto as exportações do setor somaram aproximadamente US$ 1,17 bilhão. O resultado foi um déficit comercial superior a US$ 8 bilhões, um dos maiores já registrados pelo segmento. Esses números refletem uma dependência significativa de tecnologias desenvolvidas no exterior, principalmente em áreas de maior complexidade, como dispositivos implantáveis, equipamentos hospitalares e materiais utilizados em cirurgias especializadas.

Fonte: ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA DE DISPOSITIVOS MÉDICOS (ABIMO).

Essa dependência cria uma conexão direta entre o funcionamento da saúde brasileira e o cenário econômico global. Variações cambiais, custos logísticos internacionais e mudanças nas cadeias de suprimento impactam diretamente o acesso a dispositivos médicos no país. Nos últimos anos, episódios como a pandemia e as tensões logísticas globais evidenciaram a vulnerabilidade dessas cadeias de abastecimento. Mesmo após a normalização gradual do comércio internacional, o volume de importações continua crescendo. No primeiro semestre de 2025, por exemplo, as importações brasileiras de dispositivos médicos alcançaram US$ 4,29 bilhões, registrando crescimento de 9,3% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto as exportações chegaram a US$ 473 milhões, avanço de 16%.

Fonte: SAÚDE DIGITAL NEWS.

Dentro dessa dinâmica, empresas que atuam na distribuição de materiais de OPME ocupam uma posição estratégica na cadeia da saúde. São elas que fazem a ponte entre fabricantes globais e hospitais brasileiros, garantindo a disponibilidade de dispositivos utilizados diariamente em procedimentos cirúrgicos de média e alta complexidade. No entanto, a estrutura financeira desse modelo operacional apresenta particularidades importantes. A aquisição de dispositivos importados geralmente exige capital antecipado, muitas vezes exposto às variações do câmbio e aos custos logísticos internacionais.

Ao mesmo tempo, o fluxo financeiro da cadeia da saúde segue uma lógica diferente da cadeia de suprimentos tradicional. Após a aquisição do material e o fornecimento ao hospital, o pagamento depende do faturamento e do processamento pelas operadoras de saúde. Esse processo pode levar meses para ser concluído. Na prática, muitas empresas precisam sustentar financeiramente toda a operação entre a compra do dispositivo e o recebimento final da venda. Em diversos casos, esse ciclo financeiro ultrapassa 180 dias.

Em um mercado que cresce impulsionado pela demanda por tecnologia médica e pela complexidade dos procedimentos realizados no país, garantir liquidez ao longo desse ciclo torna-se um fator estratégico para a sustentabilidade das empresas da cadeia de fornecimento da saúde. Compreender essa dinâmica financeira é essencial para estruturar operações capazes de acompanhar o crescimento do setor sem comprometer o capital necessário para manter a operação ativa.