Quando se analisa a dinâmica financeira da saúde suplementar, é comum buscar a origem dos desafios em um único elo da cadeia: o hospital que adia pagamentos, a operadora que estabelece prazos ou o fornecedor que absorve os efeitos financeiros do ciclo.
A Parte III – Poder, do Radar Mercantil, propõe uma leitura mais ampla.
Em vez de atribuir o fenômeno a um único agente, a análise observa como a estrutura da cadeia distribui capital, prazo e risco entre seus diferentes participantes.
O resultado revela uma assimetria relevante: enquanto as operadoras médico-hospitalares concentram um estoque expressivo de aplicações financeiras, os fornecedores de OPME permanecem expostos a ciclos operacionais longos, com capital imobilizado entre o fornecimento e o recebimento.
É essa dinâmica que o Radar denomina Paradoxo da Liquidez.
Em dezembro de 2025, as operadoras médico-hospitalares mantinham R$ 134,5 bilhões em aplicações financeiras, equivalente a 41,2% da receita do segmento no exercício. No mesmo ano, o resultado financeiro das operadoras chegou a R$ 14,7 bilhões, correspondendo a 62,8% do lucro líquido agregado de R$ 23,4 bilhões.
Na base da cadeia, o cenário é diferente.
O ciclo financeiro transacional do OPME apurado pela Health Mercantil foi de 158 dias em 2025: 76 dias entre o fornecimento e o faturamento e outros 82 dias entre o faturamento e o pagamento.
Considerando o mercado de OPME estimado em R$ 28,08 bilhões, esse ciclo representa aproximadamente R$ 12,15 bilhões em capital de giro imobilizado na cadeia.
Aplicada a Selic média ponderada de 2025, de 14,32% ao ano, essa imobilização representa um custo financeiro estimado em R$ 1,74 bilhão por ano.
A mesma taxa de juros, portanto, produz efeitos econômicos distintos conforme a posição ocupada na cadeia: remunera o estoque de capital em determinados pontos do sistema e eleva o custo de carregamento dos recursos imobilizados em outros.
Essa assimetria se tornou mais evidente ao longo dos últimos anos.
Entre 2021 e 2025, o resultado financeiro das operadoras passou de R$ 5,4 bilhões para R$ 14,7 bilhões, crescimento nominal de 172%. No mesmo período, o volume de distorções financeiras registrado na base ABRAIDI passou de R$ 2,89 bilhões para R$ 5,79 bilhões.
Os números não representam movimentos isolados.
Eles evidenciam diferentes posições financeiras dentro de uma mesma cadeia econômica.
O impacto financeiro sobre os fornecedores não se resume ao prazo regular de recebimento.
O Radar Mercantil estima o VDF-OPME — Valor das Distorções Financeiras da Cadeia de OPME em R$ 9,22 bilhões no cenário-base de 2025.
O indicador reúne três componentes: inadimplência, retenção de faturamento e glosas.
Na base observada pela ABRAIDI, foram registrados R$ 5,787 bilhões em distorções financeiras, equivalentes a 35,95% do faturamento agregado dos respondentes.
A composição desse valor ajuda a dimensionar o fenômeno:
R$ 3,54 bilhões em inadimplência;
R$ 2,08 bilhões em retenção de faturamento;
R$ 167 milhões em glosas.
Entre 2021 e 2025, o VDF-OPME da base ABRAIDI cresceu de R$ 2,89 bilhões para R$ 5,79 bilhões — uma expansão acumulada de 100,3%.
O ponto central é que esse contingenciamento não deve ser interpretado apenas como uma sucessão de eventos individuais.
O Radar identifica assimetrias de concentração e contratualização como fatores estruturais que influenciam a distribuição de poder, prazo e risco dentro da cadeia.
A estrutura hospitalar ocupa uma posição intermediária e particularmente sensível nessa dinâmica.
De um lado, hospitais negociam com fontes pagadoras concentradas e estão sujeitos a diferentes mecanismos de controle, auditoria e regulação. De outro, administram relações com fornecedores e prestadores que dependem da liquidação de seus recebíveis.
Em 2025, a margem EBITDA hospitalar foi de 11,05%, menor patamar da série 2022–2025. No mesmo período, a glosa inicial gerencial alcançou 15,93%, ante 11,89% em 2023. O prazo médio de recebimento hospitalar também avançou para 77,35 dias.
Nesse contexto, o hospital atua como um elo de transmissão das restrições financeiras existentes na cadeia.
Isso não significa atribuir ao hospital a origem do problema.
Significa reconhecer que sua própria estrutura financeira influencia a forma como prazos, auditorias e processos de pagamento se propagam aos demais participantes.
O resultado é uma cadeia na qual diferentes restrições podem se acumular, ampliando o tempo de imobilização de capital na base.
A dinâmica financeira da cadeia não pode ser analisada separadamente do ambiente regulatório.
Em 2025, a ANS regulava 873 operadoras, sendo 654 médico-hospitalares e 219 odontológicas. A estrutura regulatória exige mecanismos de proteção e solvência, incluindo provisões técnicas, ativos garantidores e requisitos de capital.
Esses mecanismos são fundamentais para a estabilidade da saúde suplementar.
Ao mesmo tempo, o Radar chama atenção para uma distinção importante:
proteção da solvência e disponibilidade de liquidez são dimensões diferentes da estrutura financeira.
O capital regulatório, os ativos garantidores e as aplicações financeiras das operadoras cumprem funções específicas dentro da arquitetura do sistema. Não devem, portanto, ser tratados simplesmente como recursos livres para pagamento imediato de fornecedores.
A questão central está em compreender como prazo, capital e risco se distribuem entre os diferentes agentes da cadeia.
O impacto dessa dinâmica pode ser observado por meio de uma simulação.
No cenário-base do Radar, o ciclo financeiro é de 158 dias.
Se esse prazo fosse reduzido hipoteticamente para 120 dias, a cadeia liberaria aproximadamente R$ 2,93 bilhões em capital de giro, além de gerar uma economia financeira anual estimada em R$ 420 milhões para os fornecedores de OPME.
No sentido contrário, uma extensão do ciclo para 170 dias — referência observada na pesquisa ABRAIDI — acrescentaria aproximadamente R$ 920 milhões em capital imobilizado e R$ 130 milhões em custo financeiro anual.
O exercício demonstra que prazo não é apenas uma variável operacional.
E, em uma cadeia com ciclos longos, diferenças aparentemente marginais podem representar bilhões de reais em capital de giro.
É nesse contexto que o Radar utiliza o ITEC-OPME — Índice de Tensão Estrutural de Capital.
Na base de 2025, o índice chegou a 55 pontos, enquadrado na faixa de tensão elevada.
O indicador integra variáveis como custo de capital, ciclo financeiro, prêmio de crédito, exposição cambial e intensidade operacional para acompanhar a pressão estrutural sobre o capital da cadeia.
Mais do que registrar uma fotografia, o índice permite acompanhar a evolução dessa tensão ao longo do tempo.
E estabelece uma conexão direta entre os três pilares do Radar Mercantil:
Mercado
A estrutura e a evolução da cadeia.
Capital
O custo e a dinâmica da imobilização financeira.
Poder
A forma como estrutura, concentração e regulação influenciam a distribuição de prazo, liquidez e risco.
A principal conclusão da Parte III não é que um elo da cadeia “ganha” enquanto outro “perde”.
A leitura é mais ampla.
A cadeia de OPME opera dentro de uma estrutura na qual concentração, contratualização, regulação, prazo e custo de capital interagem para determinar onde a liquidez permanece e onde o custo financeiro é absorvido.
No topo, as operadoras encerraram 2025 com R$ 134,5 bilhões em aplicações financeiras.
Na base, os fornecedores de OPME mantiveram aproximadamente R$ 12,15 bilhões imobilizados pelo ciclo operacional.
Entre esses extremos, hospitais e demais agentes administram suas próprias restrições de capital e participam da dinâmica de transmissão desses efeitos ao longo da cadeia.
Essa é uma das principais contribuições da Parte III – Poder: deslocar a discussão de uma leitura pontual sobre atrasos e inadimplência para uma compreensão mais ampla sobre como a liquidez se movimenta dentro da saúde suplementar.
Para quem toma decisões financeiras no setor, essa perspectiva é fundamental.
Porque compreender o ciclo significa compreender também onde o capital está, quanto tempo permanece comprometido e qual é o custo dessa permanência.
Mercado. Capital. Poder.
Uma leitura estruturada sobre os movimentos que estão transformando a dinâmica financeira da saúde suplementar.
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